Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...

09 Abril 2008

Eu tenho um sonho



Já haviam me avisado que aquela seria uma tarefa difícil. Além do mais o bando de mulheres mal cuidadas á minha frente já tornava a situação atípica.
Foram alguns minutos de subida íngreme, me arrastando entre os barracos, escalando altos degraus, respirando lôdo e desviando dos buracos.
Quem nunca "subiu o morro" decadente de uma favela, não sabe do que eu estou falando. Profusão de cheiros que se misturam: suor, fossa, comida, desconsolo, conformação...
Os degraus são altos, propositalmente para dificultar o acesso. Em alguns lugares as pessoas não entram, se não tiverem um “cria”. Crias são crianças que trabalham como guias.
Em alguns lugares pessoas não saem. Porque não lembram mais como é a vida no “asfalto”, porque a vida no morro tem regras próprias e hora própria.
Quem mora nas alturas, não gosta de levantar cedo. Por isso a atividade havia sido marcada quase na hora do almoço. Almoço também não existe para quem é do morro, portanto para eles, era uma hora qualquer.
Uma a uma elas foram chegando e se instalando no barraco de tábuas. Por fora ele parecia muito menor do que era. Mas no morro as coisas têm o seu tamanho próprio também. Muita coisa cabe em pouco espaço.
Eram mulheres sujas e maltrapilhas. Chegavam com olhares vazios, cheirando desilusão e indiferença. Sentavam em tábuas e latas, sem falar e sem esboçar nenhum interesse.
Era como se fossem estátuas esfoladas de concreto, daquelas que enfeitam com gosto duvidoso nossas praças. Aquelas estátuas que viram banheiro de passarinho, varal de mendigo e que ninguém vê quando passa por elas.
As mulheres que estavam á minha frente eram a imagem do nada. E eu a imagem de tudo. Desde o meu cabelo amarrado no alto da cabeça, no meio da subida, até o suor que ainda pingava e os braços cansados de carregar a minha pasta, fora o salto quase danificado na louca empreitada. Afinal o que eu estava fazendo ali? Era o que eu me perguntava naquele momento.
Me haviam designado para um Projeto Educativo em comunidades carentes, cujo objetivo era melhorar seu nível cultural. Portanto eu estava ali para ministrar uma palestra sobre Origami.
Com palavras simples e de forma didática tentei por alguns minutos chamar a atenção de uma platéia estática. Expliquei aonde era o Japão, lugar de onde vinha essa arte. Usei uma bola de futebol furada para reproduzir as distâncias. Falei de culturas diferentes, mostrei figuras, fiz dobraduras de papel...
Então contei a história de um passarinho do folclore japonês chamado tsuru. Diz a lenda que quem fizer mil tsurus tem seu sonho realizado.
Hipoteticamente, dizia eu, se você pudesse realizar um sonho, o que pediria? O vazio da resposta era tão grande quanto o dos olhos da platéia.
“ Vamos lá! Qualquer coisa!!”
A resposta veio fraca. Era quase um sussurro. “Nós temos tudo, não temos nada a pedir!”
Fim da apresentação, cada mulher sai em silêncio, deixando a palestrante embasbacada, no meio do barracão escuro.
De repente um chamado fraco e uma mão seca me puxa pelo braço. “Dona, será que a senhora me ensinava a fazer tsuru? Sabe porquê? Eu tenho um sonho..."
Ah! Entendi... Lá a ausência não era de cultura, era de sonhos...

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  • At 7:51 AM, Blogger jose said…

    já encontrei este blog em uma busca especial... voce sabe! e logo de cara vejo esta narrativa maravilhosa!!! se voce estivesse aqui, na minha frente agora, daria um beijo em seus santos olhos!!!

     
  • At 8:45 PM, Anonymous tamara said…

    depois de ler isso para o penso pra saber se realmente elas não tem sonhos, ou se apenas os mascaram por terem perdido a esperança de realiza-los..pois acho que o vazio não é de sonhos e sim de esperanças

     

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