Dia dos Namorados
Junho era um mês muito esperado, pois era quando minha família se reunia para fazer a tradicional Festa Junina. Além das delicias de dar água na boca: milho cozido, paçoca, pinhão, bombocado, pipoca, era nessa festa que fazíamos, sob as orientações de minha avó, todo o tipo de brincadeiras para o Santo.
Éramos quatro netas mulheres, a mais velha era eu, com uns 10 ou 11 anos, em volta de uma fogueira, ouvindo com atenção a história de Santo Antonio. Sempre gostei desse Santo, chamado de casamenteiro porque oferecia um dote para as noivas pobres, que não tinham como pagar por um e portanto, estavam fadadas a morrer solteironas. “Que castigo!” Eu pensava quando menina... “Morrer solteira!” Como muitas mulheres, fui nascida, criada e educada para casar. E as ingênuas simpatias que fazíamos para Santo Antonio, eram para dar um empurrãozinho.
E olha que tinham empurrões de todos os jeitos! Fincava-se uma faca na bananeira á meia-noite, esperando que a seiva da árvore, no dia seguinte escrevesse as iniciais do pretendente.
Pegava-se uma aliança de alguém casado e amarrava-se um fio de cabelo nela. Com cuidado, essa aliança era pendurada dentro de um copo, como um pêndulo. Daí ficávamos observando, quantas vezes a aliança batesse no copo, seriam os anos que faltavam para a gente casar. Claro, porque naquele tempo, não se cogitava que alguém pudesse simplesmente, não casar. A aliança tinha que bater. Por bem ou por mal...
Colocar a chave em baixo do travesseiro para sonhar com o amado, escrever em pedaços de papel, três nomes e colocar no prato cheio de água, para ver na manhã seguinte, qual deles seria o escolhido. E colocar duas agulhas no prato com água pensando no nome do pretendente, para ver se elas se atraiam ou se repeliam.
A simpatia que eu mais gostava, fazia parte de uma história que a minha avó contava: Jogava-se uma moeda na fogueira, e no dia seguinte doava-se essa moeda ao primeiro pedinte (OBS: Naquela época podia se falar pedinte e mendigo, que ninguém dizia que não era politicamente correto. Hoje teríamos que procurar um “excluído socialmente em situação de risco”... ) Mas voltando: Dá-se a moeda ao mendigo, e pergunta-se o nome dele. O nome do dito cujo seria o nome do seu futuro marido. Minha avó fez isso quando era mocinha e deu certo. O mendigo não se chamava João, Antonio ou algo comum., era um nome esquisito, igual esse papo de simpatia. Minha avó deu a moeda e achou engraçado. Passados alguns anos, ela conheceu o meu avô, em meio a Primeira Grande Guerra, como dizia ela. Homem de nome esquisito, pensou... Não achava que ia casar, porque na família, irmã mais nova, não casava antes de irmã mais velha. Era assim e pronto! E na fila do casório tinha duas na sua frente. Mas o namoro foi evoluindo e acabou em noivado, contrariando toda a família o casório ia sair. Foi remexendo em uns diários antigos que minha avó leu uma anotação, feita quando menina: O nome do mendigo da simpatia era Brasílio. Mesmo nome do seu noivo. Claro que ela não lembrava mais disso, da mesma forma que eu não me lembro do resultado, de nenhuma das simpatias que fiz quando menina. Casaram-se antes das irmãs e viveram 60 anos juntos distribuindo felicidade. Enquanto minha avó contava a sua história, quatro meninas de vestido de chita e chapéu de palha com trancinhas, suspiravam ao redor de uma fogueira.
Então eu cresci. Como toda mulher, passei alguns Dias dos Namorados acompanhada e muitos deles sozinhas. Tive comemorações memoráveis com direito a luz de velas, motel de primeira, flores, surpresas e presentes. Histórias românticas, que quase toda mulher tem para contar e que todas nós gostamos de ouvir.
Eu pelo menos tenho que assumir, que detesto a idéia de passar o Dia dos Namorados sozinha, assim como os outros 365 dias do ano bissexto também. Mas, não fico triste porque sempre acho, que coisas boas podem acontecer a qualquer momento e imagino que lindas histórias de amor ainda estão por vir. Quando acontecer, conto para vocês.
Hoje não tenho mais fogueira por perto para jogar minhas moedas, muito embora moradores de rua não faltem. Posso colocar no forno, esquentar no bico do gás e sair por aí distribuindo moedas e perguntando o nome do meu futuro namorado. Talvez namorado eu não ache, mas caridade é bom também.
E nesse dia de Santo Antonio vou ter uma conversinha com meu Santo. Dizer que as mulheres de hoje não precisam mais de dote, pagamos nossas contas, sem problemas, mas um empurrãozinho... será sempre bem vindo.
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