Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...

11 Junho 2009

Dia dos Namorados

Desde pequena eu já gostava do Dia dos Namorados. Não que fosse namoradeira, espivetada ou danada, nada disso! Acontece que o Dia dos Namorados cai na véspera do Dia de Santo Antônio. Não que eu fosse católica-apostólica-romana-radical, nada disso! Mas lembro com muito carinho de como eu, junto com minha avó, fazíamos simpatias de Santo Antonio, que minha avó chamava simplesmente de “Brincadeiras de Sorte”.
Junho era um mês muito esperado, pois era quando minha família se reunia para fazer a tradicional Festa Junina. Além das delicias de dar água na boca: milho cozido, paçoca, pinhão, bombocado, pipoca, era nessa festa que fazíamos, sob as orientações de minha avó, todo o tipo de brincadeiras para o Santo.
Éramos quatro netas mulheres, a mais velha era eu, com uns 10 ou 11 anos, em volta de uma fogueira, ouvindo com atenção a história de Santo Antonio. Sempre gostei desse Santo, chamado de casamenteiro porque oferecia um dote para as noivas pobres, que não tinham como pagar por um e portanto, estavam fadadas a morrer solteironas. “Que castigo!” Eu pensava quando menina... “Morrer solteira!” Como muitas mulheres, fui nascida, criada e educada para casar. E as ingênuas simpatias que fazíamos para Santo Antonio, eram para dar um empurrãozinho.
E olha que tinham empurrões de todos os jeitos! Fincava-se uma faca na bananeira á meia-noite, esperando que a seiva da árvore, no dia seguinte escrevesse as iniciais do pretendente.
Pegava-se uma aliança de alguém casado e amarrava-se um fio de cabelo nela. Com cuidado, essa aliança era pendurada dentro de um copo, como um pêndulo. Daí ficávamos observando, quantas vezes a aliança batesse no copo, seriam os anos que faltavam para a gente casar. Claro, porque naquele tempo, não se cogitava que alguém pudesse simplesmente, não casar. A aliança tinha que bater. Por bem ou por mal...
Colocar a chave em baixo do travesseiro para sonhar com o amado, escrever em pedaços de papel, três nomes e colocar no prato cheio de água, para ver na manhã seguinte, qual deles seria o escolhido. E colocar duas agulhas no prato com água pensando no nome do pretendente, para ver se elas se atraiam ou se repeliam.
A simpatia que eu mais gostava, fazia parte de uma história que a minha avó contava: Jogava-se uma moeda na fogueira, e no dia seguinte doava-se essa moeda ao primeiro pedinte (OBS: Naquela época podia se falar pedinte e mendigo, que ninguém dizia que não era politicamente correto. Hoje teríamos que procurar um “excluído socialmente em situação de risco”... ) Mas voltando: Dá-se a moeda ao mendigo, e pergunta-se o nome dele. O nome do dito cujo seria o nome do seu futuro marido. Minha avó fez isso quando era mocinha e deu certo. O mendigo não se chamava João, Antonio ou algo comum., era um nome esquisito, igual esse papo de simpatia. Minha avó deu a moeda e achou engraçado. Passados alguns anos, ela conheceu o meu avô, em meio a Primeira Grande Guerra, como dizia ela. Homem de nome esquisito, pensou... Não achava que ia casar, porque na família, irmã mais nova, não casava antes de irmã mais velha. Era assim e pronto! E na fila do casório tinha duas na sua frente. Mas o namoro foi evoluindo e acabou em noivado, contrariando toda a família o casório ia sair. Foi remexendo em uns diários antigos que minha avó leu uma anotação, feita quando menina: O nome do mendigo da simpatia era Brasílio. Mesmo nome do seu noivo. Claro que ela não lembrava mais disso, da mesma forma que eu não me lembro do resultado, de nenhuma das simpatias que fiz quando menina. Casaram-se antes das irmãs e viveram 60 anos juntos distribuindo felicidade. Enquanto minha avó contava a sua história, quatro meninas de vestido de chita e chapéu de palha com trancinhas, suspiravam ao redor de uma fogueira.
Então eu cresci. Como toda mulher, passei alguns Dias dos Namorados acompanhada e muitos deles sozinhas. Tive comemorações memoráveis com direito a luz de velas, motel de primeira, flores, surpresas e presentes. Histórias românticas, que quase toda mulher tem para contar e que todas nós gostamos de ouvir.
Eu pelo menos tenho que assumir, que detesto a idéia de passar o Dia dos Namorados sozinha, assim como os outros 365 dias do ano bissexto também. Mas, não fico triste porque sempre acho, que coisas boas podem acontecer a qualquer momento e imagino que lindas histórias de amor ainda estão por vir. Quando acontecer, conto para vocês.
Hoje não tenho mais fogueira por perto para jogar minhas moedas, muito embora moradores de rua não faltem. Posso colocar no forno, esquentar no bico do gás e sair por aí distribuindo moedas e perguntando o nome do meu futuro namorado. Talvez namorado eu não ache, mas caridade é bom também.
E nesse dia de Santo Antonio vou ter uma conversinha com meu Santo. Dizer que as mulheres de hoje não precisam mais de dote, pagamos nossas contas, sem problemas, mas um empurrãozinho... será sempre bem vindo.

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30 Novembro 2008

Hora de encaixotar


Final de ano, é época de limpezas.
Arrume algumas caixas e mãos á obra.
Encaixote tudo aquilo que você não quer para sua vida e despache.
Encaixote pessoas, que te fazem mal e que não te deixam crescer.
Encaixote sonhos embolorados que não deixam você olhar para outros horizontes.
Encaixote raivas e rancores.
Encaixote trabalhos chatos, serviços maçantes e empregos monótonos.
Encaixote familiares desagradáveis.
Encaixote amigos falsos, interesseiros e mesquinhos,
Encaixote crianças mal educadas, vizinhos briguentos e cachorros barulhentos.
Encaixote notícias ruins (talvez para elas você terá que usar várias caixas... mas encaixote).
Encaixote doenças, da mente e do corpo.
Encaixote melancolia, lágrimas e tristezas.
Encaixote seus segredos, afinal se você não vai contar para ninguém mesmo, não vale a pena tê-los.
Encaixote suas horas perdidas no trânsito.
Encaixote também as horas perdidas resolvendo problemas. Aproveite e encaixote os problemas juntos.
Encaixote o seu descontentamento com seu salário, suas contas e suas prestações. É melhor colocar junto toda sua preocupação com dinheiro. Arrume uma caixa bem grande.
Encaixote todos os seus EX. Coloque junto todos os amores não correspondidos e todos aqueles que você não quer mais para você.
Depois de tudo encaixotado, sele as caixas e coloque em um caminhão.
Agora imagine, com toda sua força, que esse caminhão está indo para um lugar bem longe para nunca mais voltar.
Sua limpeza está feita.
Mas não se espante se ao chegar em casa, você se deparar com caixas espalhadas pela casa toda.
Ao abri-las você verá que elas estão recheadas de coisas boas: Novos sonhos, novos amores, novos amigos, novas perspectivas, entusiasmo e esperança.
É assim mesmo...
Encaixote o velho para o novo entrar.

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03 Maio 2008

Saudades



Tenho saudades de muitas coisas.

Daquele meu vestido bordado tamanho 38 que um dia coube em mim e daquele sapato confortável de salto finíssimo, que havia pertencido a minha avó e que eu usei por anos. Mas tenho mais saudades ainda, daquela sua jaqueta preta de couro.

Tenho saudades de cidades por onde andei. Saudades de subir ladeiras de Olinda, saudades das dunas de Natal, dos sinos de Salzbourg, do vento gelado de New York, dos canais de Veneza e de me perder pelas ruas de Paris. Mas tenho mais saudades ainda, de andar por São Paulo de mãos dadas com você.

Tenho saudades de coisas que comí. Das linguiças da Alemanha, do Barreado de Morretes, dos crepes de Lucerna e de um chá da tarde em Roma. Mas tenho mais saudades da comida que você preparava, enquanto me esperava chegar do trabalho.

Tenho saudades de perfumes. Cheiro de mato do sítio do meu tio, cheiro de sal das areias do Maranhão do cheiro das feiras livres italianas. Mas a minha saudade maior, é do seu cheiro, mesmo quando era de fuligem e óleo queimado, quando você chegava do trabalho.

Tenhos saudades de alguns carros que tive. Do meu velho Jeep Willys, do primeiro carro que comprei e do meu único carro zero em toda a vida. Mas tenho saudades de verdade, é de andar de moto na sua garupa.

Tenho saudades de muitas músicas. Das que ouví em salas de espetáculos e das que ouví executadas por artistas de rua, em vários lugares do mundo. Mas tenho mais saudades, é da música que você cantava para mim naquela cantina do Bixiga.

Tenho saudades de muitos colegas que passaram pela minha vida. Mas a saudades que tenho de nossos amigos em comum e companheiros de viagem é maior.

Tenho saudades de reler muitos livros. Alguns que emprestei e nunca voltaram para mim, outros que perdí por obra de cupins e tantas mudanças. Mas tenho mais saudades de reler o primeiro bilhete que você me enviou.

Tenho saudades de muitos restaurantes. Do Bonfingher com seus vitrais coloridos, do Vilarejo que foi demolido recentemente e do Tavern on the Green com suas árvores esculpidas. Mas tenho saudades e nunca mais entrarei, naquele restaurante que almoçamos pela última vez.

Tenho saudades de muitos parques. Do Central Park, do Hyde, do Jardim Botânico do Rio onde eu brincava quando era pequena. Mas o que me dá mais saudades é passear com os cachorros sem você no Ibirapuera.

Tenho saudades de muitas sensações. Da primeira vez que dirigi um carro, da primeira vez que subi em um altar para dizer sim a alguém, da minha formatura. Mas minha saudade maior é a de acordar de manhã com seu beijo.

Tenho saudades de muitas pessoas na vida. Mas nenhuma é tão forte como a que tenho de você.

Faz quatro anos que você me deixou. Não vou levar flores no seu túmulo. Não acredito que você esteja lá esperando. Acho mais fácil você estar lendo isso, de alguma forma e em algum lugar, com aquele sorriso aberto e murmurando baixinho: Idem!

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01 Maio 2008

Rapidinha...



E como estamos falando de notícia, acessem também o blog Brincando com Dobraduras, que traz sempre novidades sobre o o meu trabalho.

Quem curte arte, vai gostar muito das novas postagens. Passe por lá!

Eu sei que o espaço aqui andou meio abandonado, mas volto logo com novidades!

Beijos

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09 Abril 2008

Eu tenho um sonho



Já haviam me avisado que aquela seria uma tarefa difícil. Além do mais o bando de mulheres mal cuidadas á minha frente já tornava a situação atípica.
Foram alguns minutos de subida íngreme, me arrastando entre os barracos, escalando altos degraus, respirando lôdo e desviando dos buracos.
Quem nunca "subiu o morro" decadente de uma favela, não sabe do que eu estou falando. Profusão de cheiros que se misturam: suor, fossa, comida, desconsolo, conformação...
Os degraus são altos, propositalmente para dificultar o acesso. Em alguns lugares as pessoas não entram, se não tiverem um “cria”. Crias são crianças que trabalham como guias.
Em alguns lugares pessoas não saem. Porque não lembram mais como é a vida no “asfalto”, porque a vida no morro tem regras próprias e hora própria.
Quem mora nas alturas, não gosta de levantar cedo. Por isso a atividade havia sido marcada quase na hora do almoço. Almoço também não existe para quem é do morro, portanto para eles, era uma hora qualquer.
Uma a uma elas foram chegando e se instalando no barraco de tábuas. Por fora ele parecia muito menor do que era. Mas no morro as coisas têm o seu tamanho próprio também. Muita coisa cabe em pouco espaço.
Eram mulheres sujas e maltrapilhas. Chegavam com olhares vazios, cheirando desilusão e indiferença. Sentavam em tábuas e latas, sem falar e sem esboçar nenhum interesse.
Era como se fossem estátuas esfoladas de concreto, daquelas que enfeitam com gosto duvidoso nossas praças. Aquelas estátuas que viram banheiro de passarinho, varal de mendigo e que ninguém vê quando passa por elas.
As mulheres que estavam á minha frente eram a imagem do nada. E eu a imagem de tudo. Desde o meu cabelo amarrado no alto da cabeça, no meio da subida, até o suor que ainda pingava e os braços cansados de carregar a minha pasta, fora o salto quase danificado na louca empreitada. Afinal o que eu estava fazendo ali? Era o que eu me perguntava naquele momento.
Me haviam designado para um Projeto Educativo em comunidades carentes, cujo objetivo era melhorar seu nível cultural. Portanto eu estava ali para ministrar uma palestra sobre Origami.
Com palavras simples e de forma didática tentei por alguns minutos chamar a atenção de uma platéia estática. Expliquei aonde era o Japão, lugar de onde vinha essa arte. Usei uma bola de futebol furada para reproduzir as distâncias. Falei de culturas diferentes, mostrei figuras, fiz dobraduras de papel...
Então contei a história de um passarinho do folclore japonês chamado tsuru. Diz a lenda que quem fizer mil tsurus tem seu sonho realizado.
Hipoteticamente, dizia eu, se você pudesse realizar um sonho, o que pediria? O vazio da resposta era tão grande quanto o dos olhos da platéia.
“ Vamos lá! Qualquer coisa!!”
A resposta veio fraca. Era quase um sussurro. “Nós temos tudo, não temos nada a pedir!”
Fim da apresentação, cada mulher sai em silêncio, deixando a palestrante embasbacada, no meio do barracão escuro.
De repente um chamado fraco e uma mão seca me puxa pelo braço. “Dona, será que a senhora me ensinava a fazer tsuru? Sabe porquê? Eu tenho um sonho..."
Ah! Entendi... Lá a ausência não era de cultura, era de sonhos...

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