Solidão

Para Ricardo
Meu amigo Ricardo passou 10 dias viajando sozinho até Parati. Como ele mesmo diz:
"Foram 10 dias, 1.297 quilômetros de estrada, 18 cidades, 9 praias, 3 ilhas, 11 fazendas, 16 igrejas, 7 cachoeiras, 6 hotéis, 30 garrafas de água mineral, 1 passeio de escuna e 1.452 fotos, estou de volta. Ufa!"
No meio de tudo isso, faltou ainda citar: um aniversário! Pois o Ricardo fez aniversário durante essa viagem e portanto passou seu aniversário sozinho.
Esse fato me fez pensar sobre a solidão.
A solidão é ótima para nosso auto-conhecimento. Conviver com nós mesmos as vezes se torna insuportável. Não é raro termos momentos em que nós mesmos não nos agüentamos. Então a solidão nos ensina isso: a conhecermos nossos limites.
Conheci uma cidade no sul da Itália, que foi abandonada. Todos seus habitantes foram embora. As casas antigas, as árvores retorcidas, dão uma sensação de que realmente ali o tempo parou. E seria uma cidade literalmente fantasma se não fosse por uma velha senhora que ficou. Essa mulher nasceu e viveu a vida toda nessa cidade e não quis se mudar. Ela mora lá sozinha, recebe uma pensão do estado para “cuidar” da cidade, como se fosse uma zeladora. Ela abre as casas, para mostrar aos poucos visitantes que de vez em quando passam por lá. Vive em uma casa com fotos antigas, móveis e objetos de moradores, que são cuidadosamente conservados pela mulher, que vive totalmente sozinha. Fico pensando em como será conviver apenas consigo mesma dessa maneira! Pois passada aquela fase da solidão gostosa que nos faz compreender melhor a nós mesmos, vem aquela fase onde a solidão se torna insuportável.
Conviver com a solidão é uma tarefa árdua, que exige uma grande disciplina, caso contrário nos deixa totalmente perdidos. Estar com as pessoas nos obriga a caminhar para frente, enquanto a solidão deixa nossa vida com cara de casa antiga e árvore retorcida.
Existem vários tipos de solidão, mas acredito que a pior delas é a solidão acompanhada. Aquela solidão que vem de dentro, que faz a gente se sentir sozinho, mesmo em uma sala cheia de gente. Ou aquela solidão presente em alguns relacionamentos, onde você tem na teoria um companheiro, mas na prática vive sozinho.
Existe aquela solidão que você busca, quando você está cansado de tudo e de todos e a única coisa que você deseja é um quarto com chave na porta.
Existe uma solidão imposta, que se origina da perda de um ente querido, de um amigo, de um amor. Essa solidão provavelmente penetrará nas suas entranhas e como semente de erva daninha, ficará plantada no seu coração durante muito tempo. Eu acredito que esse tipo de solidão não sai nunca, porque ao invés de sair se transforma em saudades e daí cresce forte e dá frutos.
Frutos de solidão são estranhos. Pode nascer desespero, haja visto a quantidade de suicídios entre pessoas solitárias. Pode nascer depressão.
É fruto também da solidão o desânimo e a passividade. Da solidão nasce a derrota e a melancolia.
E as vezes da solidão nascem grandes idéias. Os gênios da história da arte pintavam na solidão e as melhores obras nasceram dos frutos dessa solidão. O desespero, a melancolia, a depressão, são ótimos combustíveis para os artistas. As melhores músicas nascem da solidão e dos seus sintomas e a arte deve á solidão e aos seus males suas maiores vitórias.
A solidão então de todo não é má. Mas admiro aquele que consegue colher frutos bons de uma árvore tão ruim. Acredito que o gosto é amargo, sim.
E ao mesmo tempo, acredito que apenas pessoas evoluídas conseguem administrar a solidão, quer que seja no seu aniversário ou morando em uma cidade fantasma...
É fato que na reta final todos estaremos sozinhos, como dizia o poeta Vinicius, “o buraco é mais embaixo e você, com todo seu baú, vai ficar na mais total solidão pensando a beça que não levou nada do que juntou” mas até lá, sinceramente, eu prefiro estar acompanhada.
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