Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...

21 Fevereiro 2007

Solidão




Para Ricardo

Meu amigo Ricardo passou 10 dias viajando sozinho até Parati. Como ele mesmo diz:
"Foram 10 dias, 1.297 quilômetros de estrada, 18 cidades, 9 praias, 3 ilhas, 11 fazendas, 16 igrejas, 7 cachoeiras, 6 hotéis, 30 garrafas de água mineral, 1 passeio de escuna e 1.452 fotos, estou de volta. Ufa!"

No meio de tudo isso, faltou ainda citar: um aniversário! Pois o Ricardo fez aniversário durante essa viagem e portanto passou seu aniversário sozinho.
Esse fato me fez pensar sobre a solidão.

A solidão é ótima para nosso auto-conhecimento. Conviver com nós mesmos as vezes se torna insuportável. Não é raro termos momentos em que nós mesmos não nos agüentamos. Então a solidão nos ensina isso: a conhecermos nossos limites.
Conheci uma cidade no sul da Itália, que foi abandonada. Todos seus habitantes foram embora. As casas antigas, as árvores retorcidas, dão uma sensação de que realmente ali o tempo parou. E seria uma cidade literalmente fantasma se não fosse por uma velha senhora que ficou. Essa mulher nasceu e viveu a vida toda nessa cidade e não quis se mudar. Ela mora lá sozinha, recebe uma pensão do estado para “cuidar” da cidade, como se fosse uma zeladora. Ela abre as casas, para mostrar aos poucos visitantes que de vez em quando passam por lá. Vive em uma casa com fotos antigas, móveis e objetos de moradores, que são cuidadosamente conservados pela mulher, que vive totalmente sozinha. Fico pensando em como será conviver apenas consigo mesma dessa maneira! Pois passada aquela fase da solidão gostosa que nos faz compreender melhor a nós mesmos, vem aquela fase onde a solidão se torna insuportável.
Conviver com a solidão é uma tarefa árdua, que exige uma grande disciplina, caso contrário nos deixa totalmente perdidos. Estar com as pessoas nos obriga a caminhar para frente, enquanto a solidão deixa nossa vida com cara de casa antiga e árvore retorcida.
Existem vários tipos de solidão, mas acredito que a pior delas é a solidão acompanhada. Aquela solidão que vem de dentro, que faz a gente se sentir sozinho, mesmo em uma sala cheia de gente. Ou aquela solidão presente em alguns relacionamentos, onde você tem na teoria um companheiro, mas na prática vive sozinho.
Existe aquela solidão que você busca, quando você está cansado de tudo e de todos e a única coisa que você deseja é um quarto com chave na porta.
Existe uma solidão imposta, que se origina da perda de um ente querido, de um amigo, de um amor. Essa solidão provavelmente penetrará nas suas entranhas e como semente de erva daninha, ficará plantada no seu coração durante muito tempo. Eu acredito que esse tipo de solidão não sai nunca, porque ao invés de sair se transforma em saudades e daí cresce forte e dá frutos.
Frutos de solidão são estranhos. Pode nascer desespero, haja visto a quantidade de suicídios entre pessoas solitárias. Pode nascer depressão.
É fruto também da solidão o desânimo e a passividade. Da solidão nasce a derrota e a melancolia.
E as vezes da solidão nascem grandes idéias. Os gênios da história da arte pintavam na solidão e as melhores obras nasceram dos frutos dessa solidão. O desespero, a melancolia, a depressão, são ótimos combustíveis para os artistas. As melhores músicas nascem da solidão e dos seus sintomas e a arte deve á solidão e aos seus males suas maiores vitórias.
A solidão então de todo não é má. Mas admiro aquele que consegue colher frutos bons de uma árvore tão ruim. Acredito que o gosto é amargo, sim.
E ao mesmo tempo, acredito que apenas pessoas evoluídas conseguem administrar a solidão, quer que seja no seu aniversário ou morando em uma cidade fantasma...
É fato que na reta final todos estaremos sozinhos, como dizia o poeta Vinicius, “o buraco é mais embaixo e você, com todo seu baú, vai ficar na mais total solidão pensando a beça que não levou nada do que juntou” mas até lá, sinceramente, eu prefiro estar acompanhada.

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11 Fevereiro 2007

Para meu pai




Meu pai tem um sorriso franco; dizem que o meu sorriso se parece com o dele. Também tenho o mesmo senso de humor — às vezes sarcástico, às vezes sutil — do meu pai.
Meu pai é engraçado, e eu sou divertida. Aprendi com ele que a gente deve viver um problema de cada vez. Meu pai ri dos problemas dele e eu dou risada com meu pai.

Quando eu era pequena, ele me contava histórias e imitava a voz dos bichos e das pessoas. Quando eu cresci, virei contadora de histórias. Publiquei livros que provavelmente meu pai nunca leu nem lerá, pois nunca na vida vi meu pai terminar de ler um livro sequer. Então, de onde saíam aquelas histórias? Da cabeça sonhadora dele, um ótimo contador de causos.
Meu pai me ensinou a nunca esperar nada da política. Conselho muito útil, diga-se de passagem. Ensinou-me que o negócio é trabalhar e pagar as contas, e nunca esperar que alguém faça algo por você.
Meu pai me ensinou a gastar dinheiro, a não me privar dos pequenos prazeres da vida. Que dinheiro em si é uma coisa suja e fedorenta e só tem valor pelo que pode comprar de bom e pelos momentos felizes que pode nos proporcionar.
Meu pai compra tudo que pode nos semáforos. Ele acha que é uma maneira de distribuir melhor a renda e dar emprego para essa gente. É um homem de visão e me ensinou que pequenos atos fazem a diferença. Quando eu era pequena, ele me levava ao cinema. O que eu mais gostava era do Cine Espacial, que tinha várias telas. O primeiro filme adulto que eu vi foi Meteoro, que meu pai deixou eu mesma escolher, porque minha mãe tinha mandado a gente ver desenho. Meu pai gosta de filmes como eu, mas não gosta de novelas.
Ele gosta de doces e eu também. Mas adora leite, e eu nem posso com o cheiro. Assim como meu pai, demorei a gostar de verduras, e tanto eu quanto ele não comemos frituras. Camarão eu não gosto, ele adora. Cerveja a gente bebe junto, já faz muito tempo, nem me lembro desde quando.
Meu pai gosta de ouvir música bem alto, eu também. E assiste o mesmo DVD mil vezes, como eu. Gosta de MPB, ouve Elton John e André Rieau, Jorge Aragão e U2. Ensinou-me que é normal gostar de vários estilos musicais.

Meu pai chama garçom pelo nome, dá a mão para frentista de posto e maître de restaurante. Eu também. Aprendi com ele a conhecer as pessoas que me atendem e a tornar-me conhecida também. Meu pai vai sempre ao mesmo posto de gasolina, à mesma farmácia, ao mesmo supermercado e ao mesmo restaurante. Ele gosta dessa rotina, e eu também.
Meu pai esquece o nome das pessoas e, assim como eu, não sabe com quem está falando. Mas a gente não deixa a pessoa perceber. Nem eu, nem ele.

Meu pai me ensinou a dançar “dois e um até a parede”. Dançou comigo quando fiz 15 anos, dançou comigo quando me casei. Ele gosta de dançar, e eu também. Sempre deu festas maravilhosas, porque ele gosta de festas, assim como eu.

Meu pai não gosta de dirigir à noite, eu também não. Ele me ensinou a dirigir carro e também a dirigir minha vida. Ensinou a ter jogo de cintura com os pequenos problemas do dia-a-dia. Não esquentar com pouco, porque não vale a pena.

Meu pai me pegou pela mão quando fiz 15 anos e me levou ao altar quando casei, rindo à toa enquanto tocava a Marcha Nupcial mais longa que eu já ouvi na vida. Ele chorou comigo e me deu a mão também quando tive de enterrar um grande amor.

Meu pai me deu educação e nunca se incomodou de eu não ser a primeira da classe.
Ele me deu casa, mas me deixou sair para construir a minha própria. Deu-me uma infância feliz, brinquedos bonitos, bonecas, uma máquina fotográfica, um videogame e uma bicicleta quando fiz 14 anos.

Ele me deixou ter coelhos, tartarugas, peixes, cachorros e passarinhos, todos os bichos que fazem uma criança feliz, e me ensinou a cuidar deles e a ser responsável.

Ensinou-me sobre a morte, me levando a cada enterro. E me ensinou a rezar, me levando à missa aos domingos.
Meu pai sempre elogia minhas roupas, meu cabelo, ele acha que as mulheres devem ser elogiadas. Ele sempre elogia as pessoas.

Ele é palmeirense e eu também. Eu assistia aos jogos com ele pela TV e, quando era Copa do Mundo, a gente fazia a maior festa. Eu faço festa na Copa do Mundo até hoje.

Meu pai toma banho em cinco minutos. Eu também. Mas ele não usa meia para dormir, coisa que uso sempre, faça frio ou calor.

Meu pai gosta dos meus amigos e meus amigos gostam dele, pois ele faz amigos com facilidade, como eu.

Meu pai trabalha na mesma área que eu, somos companheiros de trabalho e de vida. Temos amigos em comum, que a gente não sabe mais quem foi que apresentou quem.

Meu pai faz 70 anos hoje.

Pai, como traduzir em palavras como você foi importante na minha vida, senão te mostrando como somos parecidos? Seu exemplo irá me acompanhar por toda a vida e seu sorriso estará sempre iluminando meu caminho. Eu sou uma pessoa de sorte, pois tenho um pai como você e, neste dia, espero que você esteja muito feliz!

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08 Fevereiro 2007

Piratas de Corações


No decorrer da vida encontramos toda sorte de pessoas. Há pessoas que eu chamo de piratas. Você irá reconhecê-las em muitos lugares:
São pessoas misteriosas, que conseguem te surpreender, mesmo tendo você convivido anos com elas.
Essas pessoas se escondem atrás de um tapa-olho. Literalmente estão sempre com um olho aberto e outro fechado, atentas a todos os seus passos.
Pessoas piratas são livres, comprometidas apenas com o sabor dos ventos, que podem mudar de direção a qualquer momento. Então a pessoa pirata, levanta sua vela e rapidinho zarpa da sua vida e some na escuridão.
Pessoas piratas tem uma faca na cintura, com ela descascam sua fruta preferida, te protegem de todas as feras, cortam galhos para fazer fogo e te aquecer. Mas pessoas piratas não pensarão duas vezes antes de te apunhalar pelas costas.
Pessoas piratas navegam em grandes veleiros, que nunca terão a rapidez de uma moto, ou um avião, ou pelo menos um carro. Elas seguem sossegadamente o seu próprio ritmo, sem mudanças, há séculos.
Pessoas piratas, sabem quando uma tempestade se aproxima e são as primeiras a abandonar o navio.
Pessoas piratas se orientam por mapas, seguem regras pré estabelecidas, desde que elas sejam do seu interesse. Essas pessoas tem o dom de reconhecer caminhos, de desbravar florestas e cavernas escuras. Mesmo sem bússola, elas saberão te guiar para terra firme. Pena que te abandonam por qualquer tesouro! Sim, porque pessoas piratas, estão sempre em busca de um tesouro, seja ele qual for e mesmo depois de encontrado, você verá uma pessoa pirata enterrando esse tesouro novamente na areia e partindo em busca do próximo.
Piratas não pensarão duas vezes antes de sugar o que você tem de melhor. Arrastarão para o seu navio, seus sonhos, suas melhores intenções, suas esperanças e jogarão tudo num fosso profundo.
Pessoas piratas tem lunetas compridas e enxergam longe. Enquanto você só vê água, um pirata já está avistando terra firme e pensando na melhor maneira de chegar primeiro até ela.
Pessoas piratas não tem amigos, tem companheiros de jornada. Algumas andam com um papagaio no ombro, para não se sentirem sozinhas. Assim, essas pessoas não precisam criar laços, nem cultivar amigos. Se bastam a si mesmos, os piratas e seus papagaios.
Piratas gostam de papagaios, porque eles só repetem aquilo que ouvem e sempre concordarão com o seu pirata. Nada de diálogos, debates e troca de idéias com um pirata. Ele preferirá conversar com seu papagaio, sempre...
Piratas não usam bandeiras, nem anunciam sua chegada. Seu navio é silencioso, seu ataque é preciso. Só depois de conquistado o navio, é hasteada a bandeira negra.
Mas o maior perigo de um pirata é a neblina que o envolve. Porque não há navio pirata que navegue em águas mansas.Pirata que é pirata, navega em meio a um denso nevoeiro. Esse nevoeiro seduz, hipnotiza e atrai suas vítimas. A névoa misteriosa faz do pirata um sedutor e então, quando você menos esperar, estará amarrado a uma prancha e saberá que o pior tipo de pirata é o pirata de corações.

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01 Fevereiro 2007

Pesos e Medidas

O envolvimento das pessoas em uma relação pode ser medido pelos pesos que elas carregam. Imaginem que, a cada passo dado em uma relação você coloca uma pedra na sua bolsa. Quando você pede alguém em namoro, você coloca uma pedra na bolsa. Quando você faz sexo, você coloca outra. Quando você comemora um mês de namoro, mais uma. Quando conhece os amigos ou a familia do seu parceiro, outras pedras e assim por diante...


Essas pedras são a responsabilidade que você vai adquirindo a cada ação sua. E junto com novas medidas, virão novas responsabilidades.


O que acontece é que as vezes as pessoas não estão prontas para o peso de algumas dessas responsabilidades. Tomam a medida e se esquecem que junto com esse passo, virá a pedra que lhe cabe. Porque você terá que apanhar a pedra inevitavelmente...


Então começa o problema, porque de repente aquela pedra começa a pesar sobre a relação. Você provavelmente chegará a conclusão, que não tinha ainda maturidade para ter dado aquele passo e que as consequências estão ficando pesadas demais.


Algumas vezes, basta apenas uma dessas pedras para rasgar a bolsa e por fim em uma relação. Com certeza ninguém vai entender nada, afinal tudo parecia estar indo tão bem...Mesmo porque, vários passos estavam sendo dados e o rompimento soa como ilógico.


Mas o fato é que as pedras acabaram pesando. Ou porque a relação ainda não tinha força suficiente para arcar com o peso delas, ou porque pegar tantas pedras, tão rápido foi precipitado, o fato é que você verá aquela pessoa tão apaixonada pôr fim na relação de uma hora para outra.


É impossível não progredir nas relações, assim como é impossível não carregar a responsabilidade de cada um dos seus atos. Ninguém abandona suas pedras porque quer, da mesma forma que não se casa pensando na separação, mas ela as vezes acontece.


Somos todos humanos e muitas vezes, pegamos para nós pedras demais, que não conseguiremos carregar. Conhecer nossos limites faz com que saibamos conduzir de forma mais responsável nossas relações e nos ajuda a trilhar um caminho mais leve.

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