Lurdes

Lurdes fitou Marcelo, o terno lhe caía bem. A última vez que o vira foi na sua formatura. Ele havia se formado em direito e foi orador da turma. Seu discurso havia sido forte, otimista, cheio de emoção e arrancara lágrimas dos pais, amigos e de Lurdes também. Lurdes ficou pensando quantas formaturas já presenciara... Nenhuma foi a sua...
Lurdes ouviu um choro abafado. A criança no colo não quietava. A mãe incomodada a balançava. O bebê se chama Bruno. Lurdes foi ao seu batizado. Lembrou do padre mal humorado, porque a madrinha havia se atrasado. A criança chorando na hora que lhe derramaram a água fria sobre a cabecinha. A touca do bebê que sumiu, inexplicavelmente e apareceu depois, só na hora do almoço. Lurdes podia jurar que estava no bolso do padrinho todo o tempo. Ficou pensando de quantos batizados já participou... Nenhum foi de seu filho...
Lurdes sentiu um perfume forte. Era Laura, metida em uma saia justa, salto alto e uma blusa de renda. Desse forma parecia mulher feita. Ontem mesmo ela tinha 15 anos! Lurdes lembra de tê-la visto dançando a valsa e apagando velas. Usava um vestido longo rosa e suas damas usavam branco. O bolo era de chocolate. Um dos mais gostosos que Lurdes já comera. Não era enjoativo. Ficou pensando em todas as festas de 15 anos que já foi convidada... Nenhuma foi a sua...
Lurdes viu o casal de mãos dadas. Quantos anos se passaram desde as suas bodas de prata? Cinco, talvez seis. Os olhos dele continuam apaixonados, voltados sempre para ela. Mesmo a distância, Lurdes sentia aquele olhar. A paixão dos dois nunca se apagou, nem esmoreceu sequer. Lurdes ficou pensando quantas Bodas ela presenciou... De Prata, de Ouro... Nenhuma foi a sua...
Lurdes riu em ver Carlos. Da última vez que se encontraram ele estava completamente bêbado. Comemorava seu aniversário e todos pareciam querer exagerar na dose. Quanto mais bebiam, mais eles riam. Carlos tinha muitos amigos, andava com várias mulheres, bebia e fumava muito. Lurdes pensou em quantas bebedeiras ela assistiu! Nenhuma foi a sua...
Lurdes viu Karina e Pedro. Ela foi em seu casamento. Havia sido perfeito! A música, a festa, a cerimônia. Dignos de um príncipe e uma princesa. Os avós da noiva entraram com as alianças, ao invés dos tradicionais noivinhos. Lurdes pensou na emoção daquela cena, dos violinos tocando e do casal esbanjando sabedoria e cumplicidade enquanto passavam pela comunidade extasiada. Lurdes lembrou quantos casamentos já havia presenciado... Nenhum foi o seu...
Lurdes viu Jair. Não o via desde aquela festa surpresa, que ele havia feito para sua mulher Jane. Lembrou que ele ligou para todos os amigos dela. E para cada amigo que ligava, pedia para indicar um nome, de algum amigo mais chegado, que por ventura ele havia esquecido. Na hora do bolo, Jair deu um anel para Jane e no bolo estava escrito com caramelo: “Eu te amo”. Lurdes lembrou de várias festas surpresa que foi convidada... Nenhuma foi a sua...
Lurdes viu Mariana. Sempre elegante, essa moça! Precisavam ver a roupa que ela usava no dia que foi promovida e resolveu dar uma festa para seus amigos! Ela havia acabado de chegar de New York e seu vestido esbanjava charme. O cargo de diretoria lhe proporcionaria muitas viagens: Tókio, Paris, Madri, Roma, Milão. Ela sempre se oferecia: “Quer que eu lhe traga alguma coisinha?” Ora, aonde eu iria com “essas roupinhas”, pensava. Lurdes lembrou de quantas promoções assistiu... Nenhuma foi a sua...
Lurdes viu Carmelinda. Era a maior “papa-defunto” que ela já conhecera. Não podia saber de um velório, lá ia Carmelinda. Mesmo se não conhecesse o defunto, a viúva, ou nenhum parente próximo, Carmelinda comparecia e sempre puxava o terço. Usava sempre uma saia cinza lamacenta e uma blusa escura listrada. Parecia ser seu uniforme. Lurdes ficou lembrando quantos enterros ela presenciou... Agora era o seu...
Descanse em paz Lurdes...
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