Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...

19 Junho 2007

Platonicismo



“Pelas grades da prisão ele via a garota da papelaria, enquanto sonhava com o dia da sua libertação. A primeira coisa a fazer seria pedí-la em casamento. Arrumariam um barraco onde criariam os filhos e teriam até um cachorro. Ele ia ter uma família feliz, com férias na praia e árvore enfeitada no Natal. Para a moça não se esquecer da promessa, através das grades, ele desenhava corações no ar.”
H.J.

O amor platônico pela moça da papelaria fez H.J. suportar os meses que ficou na prisão. Quando saiu, a volta para sua antiga realidade, fez com que o seu grande amor fosse esquecido. Porém, durante esse tempo, o amor platônico sustentava seu ânimo e sua vontade de viver.
Todos nós passamos por esses “platonicismos” na nossa vida , mais vezes do que nos damos conta.
Você pode ficar no ponto de ônibus reclamando da condução atrasada, ou torcendo para aquele cara do corsa azul que passa engravatado as 7:30 da manhã, passar mais tarde naquele dia. Com um simples platonicismo no início do seu dia, a espera se torna suportável e até prazerosa.
Existem platonicismos de vários graus. Esse é o mais básico e se você consultar a sua mente, verá quantas vezes você faz isso no seu cotidiano. Na fila do banco, do supermercado e em todos os lugares, para tornar aquele momento mais agradável.
Em outro grau de platonismo temos o amor platônico. Aquele que você tem certeza que nunca vai se concretizar. Amores proibidos, impossíveis, ou que simplesmente devem ficar onde estão: no platonicismo. Pacientes que se apaixonam por médicos, alunos por professores, colegas de internet e toda sorte de cruzamentos que vocês imaginarem.
Paixões arrebatadoras por pessoas que geralmente não sabem que são amadas. Não raras vezes esses amores assumem um papel importante na vida daquele que ama. O amor platônico se torna necessário, como fuga, descanso ou simplesmente uma trégua dentro da dura realidade do cotidiano.
O ser humano precisa de amor, frio no estômago, esperas ansiosas, tudo que o amor platônico oferece. Por isso: Viva o platonicismo no dia-a-dia! Acredito que todos nós precisamos de amores platônicos, com pequenos, ou grandes graus de intensidade, para tornar nossa vida mais bonita.

“Perguntei a H.J. se ele nunca havia procurado a menina.
-Eu entrei na papelaria um dia, para comprar selos.-disse ele- E ela disse que não tinha...”

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13 Junho 2007

Sobre meias e gorros



O frio era intenso na noite paulistana. Um grupo de pessoas vagavam pela cidade, distribuindo lanches e chocolate quente aos moradores de rua. Seria uma noite difícil aquela.
O homem dormia na calçada. Como colchão usava um pedaço de papelão e para se agasalhar um cobertor velho. Ele cobria a cabeça com o cobertor, não deixando nem rastro das orelhas. O cobertor curto deixava os pés de fora. Pés descobertos, sujos e despidos. Talvez se não fosse pelos pés descalços perdidos naquela cena, não seria possível identificar o homem no meio de tanto lixo.
O grupo acorda o homem e tiram de uma sacola um par de meias:
- Olha que sorte a sua! Trouxemos um par de meias!
O homem olha para as meias com rosto espantado e responde:
- Eu não preciso de meias, eu preciso de um gorro...
Espantados todos se olham:
- Mas o seu pé está descalço e com o frio que está fazendo, você vai congelar.
- Por isso mesmo eu preciso de um gorro, minhas orelhas estão geladas! Quem se incomoda com os pés num frio desses!
Ninguém havia trazido gorro.

Retornamos para casa e eu pensando no assunto...
Quantas vezes ao vermos o pé descoberto do nosso semelhante oferecemos meias, enquanto ele precisa de gorro?
Quase sempre para nós é óbvio o que o outro necessita. Fazemos o nosso próprio julgamento oferecendo aquilo que pensamos ser a solução de todos os problemas, enquanto muitas vezes a necessidade está muito longe daquilo que imaginamos.

Muitas entidades sociais fazem isso, criando ações espalhafatosas como se fossem meias coloridas, totalmente fora da realidade dos seus assistidos.
Muitos professores fazem isso, ensinado coisas totalmente inúteis, em formato de meias soquetes, não levando em consideração as expectativas de seus alunos.
Muitos médicos fazem isso, buscando soluções faraônicas como meias 7/8 para doenças simples, ao invés de receitarem chá e descanso.
Muitos pais fazem isso, oferecendo luxos extravagantes, como se fossem meias importadas, ao invés de perceberem o pedido de socorro velado de seus filhos.
Muitos amigos fazem isso, oferecendo conselhos prontos, como meias 3/4, ao invés de ouvirem a história dos seus colegas.
Muitas religiões fazem isso, oferecendo a salvação da sua alma, como se fossem meias de lã, ao invés de perceberem as fraquezas do corpo de cada fiel.

E você? Oferece meias ou pergunta quem quer gorros?

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