Valsinha

O sol de primavera no tom certo dourava a paisagem do parque. Aos poucos, entre as árvores iam chegando as pessoas e se acomodando no gramado verde.
Chegou a moça e seu cachorro labrador. Ela deitou na grama. Seus cabelos lisos dourados, se confundiam com os pelos do cão deitado, enquanto ela por trás dos óculos escuros, admirava a copa das árvores.
Chegou a senhora com a bengala e um banquinho, mulher previdente sempre carregava o seu banquinho, desviou da moça e do cachorro e sentou-se mais adiante.
Chegou o rapaz musculoso com sua bicicleta, olhou no relógio inquieto, tirou da mochila uma garrafa d´agua, bebeu um gole, escolheu uma sombra e sentou-se encostado na bicicleta.
Chegou a menina com seu livro.Sentou-se quietinha no canto, tirou um chocolate do bolso e começou a fazer a sua leitura.
Chegou o avô com o neto. O neto corria em volta do avô, que sorria para o menino. O avô sentou-se e o neto ainda corria. Enquanto o neto corria, o avô recuperava o fôlego.
Chegaram os músicos, o maestro e o solista.
De repente o burburinho terminou, enquanto a orquestra soava os primeiros acordes.
A moça suava enquanto o cachorro dormia.
A senhora brincava com a bengala.
O rapaz girava a roda da bicicleta.
A menina folheava o livro.
O avô bocejava enquanto tamborilava com os dedos.
A música tocava.
O casal chegou fazendo barulho, com o farfalhar da saia dela e o som das bugigangas no saco. Ele catava latinhas do chão, uma aqui, outra acolá, enquanto ela arrastava um saco de lixo meio vazio. As roupas eram fedidas, com jeito que não viam água há muito tempo. O rosto da mulher era sujo e lamacento, o rosto do homem suado e magro. Ela tinha um lenço na cabeça e ele um chapéu surrado. O homem revirava o lixo e a mulher olhava com ar resignado.
A música tocava e o homem parou para escutar. Os acordes tocaram no fundo do coração do homem. A mulher parou para ouvir também. O homem olhou para a mulher e sorriu. A mulher sorriu também. De repente queriam chegar mais perto do palco. Caminhando juntos foram esbarrando nas pessoas.
Quase pisaram no cachorro, que ameaçou rosnar.
Derrubaram a bengala da senhora, que olhou torto.
Passaram pelo rapaz da bicicleta, que nem reparou.
Esbarraram na menina que lia.
Pararam do lado do avô.
O homem olhou com ternura para a mulher, enquanto a valsa tocava. Homem pobre não conhecia nada de música, só entendia de miséria. Sabia farejar comida no lixo, feito animal vivia pelas ruas. Para esquentar tinha seu chapéu, para dormir um saco de lixo. Como companheira, sua mulher. Com ela dividia, sua comida, seu lixo e sua quase coberta. Seu teto, sem teto, embaixo da ponte, ou no banco da praça. Foram assim durante muitos anos, ele nem lembrava desde quando. De música ele não entendia, mas entendia de carinho, de cumplicidade, de companheirismo e naquele momento, teve vontade de tirar a mulher para dançar.
Ela sorriu e lhe deu a mão. E assim no meio do parque, para a platéia e para a orquestra o casal dançou. O sol de primavera dourava as árvores e a leve brisa embalava o casal, que ria e bailava. Melhor salão de baile não havia como aquela manhã no parque.
Então a moça começou a acariciar o cachorro e pensar, há quanto tempo um homem não a tirava para dançar.
A senhora olhou para o casal e suspirou, lembrando que nunca havia em toda a vida dançado assim.
O rapaz percebeu o casal e pensou, se algum dia iria dançar com uma mulher, daquela maneira.
A menina olhando a cena suspirou, sonhando em um dia também dançar do mesmo jeito.
O avô enxugou uma lágrima, lembrando em sua viuvez, de todas as valsinhas que já havia dançado.
E o casal sorriu, sorriu... e eles bailaram, sem se incomodar com os olhares, até a música acabar.
E naquele dia no parque, os músicos tocaram mais que música, e a platéia assistiu mais que um espetáculo.
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