Vida roxa

Ela morava em um apartamento pequeno de periferia. As paredes desbotadas há muito não viam uma tinta fresca. O teto embolorado, vítima de uma ou outra goteira, jazia cinza sobre sua cabeça e as lâmpadas de 40 velas deixavam a penumbra tomar conta do local. O seu claustro cinza lamacento, ela habitava sozinha.
Na manhã chuvosa ela saiu de casa, como fazia todos os dias. Colocou aquela roupa de ginástica moderna, igual a da revista de moda. Como a calça era roxa e a blusa também, colocou brincos, anel e pulseira roxos, para combinar. Não fazia ginástica, nem nunca fez, mas achava que a roupa de ginástica a deixava mais jovem. Tinha várias, uma mais colorida que a outra, que ela usava todos os dias para passear. Mas sua roupa preferida era aquela roxa.
Como não pagava condução, não se incomodava em passar o dia todo andando. Ficava zanzando de um lado para o outro. Seu trajeto preferido era o metrô. Ás vezes entrava no trem e ia até o fim da linha várias vezes. Desocupada? De jeito algum! Aposentada. Anos de trabalho em uma repartição lhe garantiram esse direito: O direito de andar de metro e ônibus ás custas do dinheiro público, quantas vezes desejar.
E ela fazia bom uso desse direito. Era uma pessoa educada, entrava no vagão e cumprimentava um por um. Claro que ninguém respondia, o máximo que conseguia era um breve balançar de cabeça ou um sorriso. Isso para ela já era o bastante para começar a falar. Se os automóveis usam o sinal verde para prosseguir, ela usava esses sinais para puxar uma conversa. E falava de tudo: contava casos da infância, da mocidade, da vida dela e dos outros, do marido que nunca veio, dos filhos que nunca teve. Era assunto que não acabava mais, ou melhor, acabava na próxima parada quando seu ouvinte descia. Então ela descia também, pegava outro vagão e cumprimentava todo mundo novamente, esperando o "sinal verde".
São Paulo é uma cidade interessante, que tem de tudo perto do metrô. Ela ás vezes descia na estação da Catedral. Mas não entrava na igreja. Ficava perto da cumbuca de água benta. Assim que alguém colocava a mão, ela cumprimentava e ficava esperando o "sinal verde" que sempre vinha. Museus, lojas, igrejas, feiras de artesanato, nada lhe escapava. Mas, seu maior prazer era ir ao Shopping. Lá todos lhe davam "sinal verde". Era só entrar em uma loja e cumprimentar a balconista e pronto: Sinal verde! Comprar, nunca comprava nada, pois seu salário de aposentada não permitia, mas também não precisava. Há muito não precisava de bens materiais, exceto pelas roupas de ginástica de cores berrantes, que ela acreditava que a deixavam mais nova. A única coisa que precisava era falar. E isso ela conseguia de graça.
Naquela manhã ela pegou o metrô até a Feira de Artesanato da República. Encostou na primeira barraca e cumprimentou o atendente. Um sorriso foi o “Sinal verde”. E lá foi ela, desatar a falar. O atendente fingia que ouvia enquanto pensava na vida. De vez em quando balançava a cabeça e por educação sorria. “Sinal verde!” - pensava ela- e continuava falando. Depois de muito falatório, ela pensou: Quanto tempo havia se passado? Vinte, trinta minutos? O atendente com olho vidrado e sorriso amarelado ainda olhava para ela fixamente. A roupa roxa ofuscava sua vista e a combinação roupa, colar, brinco, pulseira, sapato roxos estavam deixando ele tonto. Hora de ir embora.
- Muito obrigada. – disse ela- Você me ajudou muito! Foi muito bom conversar com você!
Ela vira as costas e se vai, deixando perplexo o rapaz que não abriu a boca um minuto sequer. E nem precisava, ela não queria ouvir, ela só queria falar...
Naquele fim de dia chuvoso ela vai sorridente, rumo ao metrô, pensando que havia sido um bom dia. Passeara tanto. A sua roupa roxa nova tinha feito muito sucesso. E aquele rapaz tão simpático, que ficou horas conversando com ela? Com certeza foi por causa da roupa roxa que a deixava mais nova. Roupa essa, paga com o dinheiro da aposentadoria, em várias prestações, mas que foi um bom investimento. Ela pega o metro e volta para a solidão do seu pequeno apartamento mofado. Senta numa cadeira e pensa: Será que não está na hora de pintar as paredes também de roxo?
Na manhã chuvosa ela saiu de casa, como fazia todos os dias. Colocou aquela roupa de ginástica moderna, igual a da revista de moda. Como a calça era roxa e a blusa também, colocou brincos, anel e pulseira roxos, para combinar. Não fazia ginástica, nem nunca fez, mas achava que a roupa de ginástica a deixava mais jovem. Tinha várias, uma mais colorida que a outra, que ela usava todos os dias para passear. Mas sua roupa preferida era aquela roxa.
Como não pagava condução, não se incomodava em passar o dia todo andando. Ficava zanzando de um lado para o outro. Seu trajeto preferido era o metrô. Ás vezes entrava no trem e ia até o fim da linha várias vezes. Desocupada? De jeito algum! Aposentada. Anos de trabalho em uma repartição lhe garantiram esse direito: O direito de andar de metro e ônibus ás custas do dinheiro público, quantas vezes desejar.
E ela fazia bom uso desse direito. Era uma pessoa educada, entrava no vagão e cumprimentava um por um. Claro que ninguém respondia, o máximo que conseguia era um breve balançar de cabeça ou um sorriso. Isso para ela já era o bastante para começar a falar. Se os automóveis usam o sinal verde para prosseguir, ela usava esses sinais para puxar uma conversa. E falava de tudo: contava casos da infância, da mocidade, da vida dela e dos outros, do marido que nunca veio, dos filhos que nunca teve. Era assunto que não acabava mais, ou melhor, acabava na próxima parada quando seu ouvinte descia. Então ela descia também, pegava outro vagão e cumprimentava todo mundo novamente, esperando o "sinal verde".
São Paulo é uma cidade interessante, que tem de tudo perto do metrô. Ela ás vezes descia na estação da Catedral. Mas não entrava na igreja. Ficava perto da cumbuca de água benta. Assim que alguém colocava a mão, ela cumprimentava e ficava esperando o "sinal verde" que sempre vinha. Museus, lojas, igrejas, feiras de artesanato, nada lhe escapava. Mas, seu maior prazer era ir ao Shopping. Lá todos lhe davam "sinal verde". Era só entrar em uma loja e cumprimentar a balconista e pronto: Sinal verde! Comprar, nunca comprava nada, pois seu salário de aposentada não permitia, mas também não precisava. Há muito não precisava de bens materiais, exceto pelas roupas de ginástica de cores berrantes, que ela acreditava que a deixavam mais nova. A única coisa que precisava era falar. E isso ela conseguia de graça.
Naquela manhã ela pegou o metrô até a Feira de Artesanato da República. Encostou na primeira barraca e cumprimentou o atendente. Um sorriso foi o “Sinal verde”. E lá foi ela, desatar a falar. O atendente fingia que ouvia enquanto pensava na vida. De vez em quando balançava a cabeça e por educação sorria. “Sinal verde!” - pensava ela- e continuava falando. Depois de muito falatório, ela pensou: Quanto tempo havia se passado? Vinte, trinta minutos? O atendente com olho vidrado e sorriso amarelado ainda olhava para ela fixamente. A roupa roxa ofuscava sua vista e a combinação roupa, colar, brinco, pulseira, sapato roxos estavam deixando ele tonto. Hora de ir embora.
- Muito obrigada. – disse ela- Você me ajudou muito! Foi muito bom conversar com você!
Ela vira as costas e se vai, deixando perplexo o rapaz que não abriu a boca um minuto sequer. E nem precisava, ela não queria ouvir, ela só queria falar...
Naquele fim de dia chuvoso ela vai sorridente, rumo ao metrô, pensando que havia sido um bom dia. Passeara tanto. A sua roupa roxa nova tinha feito muito sucesso. E aquele rapaz tão simpático, que ficou horas conversando com ela? Com certeza foi por causa da roupa roxa que a deixava mais nova. Roupa essa, paga com o dinheiro da aposentadoria, em várias prestações, mas que foi um bom investimento. Ela pega o metro e volta para a solidão do seu pequeno apartamento mofado. Senta numa cadeira e pensa: Será que não está na hora de pintar as paredes também de roxo?
Marcadores: Comportamento, Cotidiano, Crônicas

