Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...

21 Fevereiro 2008

Ratinho Branco


Foi ele entrar no Orkut e se deparar com aquele nome no olho mágico. Todos os dias ele via uma lista de pessoas desconhecidas que visitavam a sua página. Nunca deu importância, mas naquele dia um nome lhe soou familiar. "Seria ela?" Não podia ficar com essa dúvida e deu ENTER.

Ela apareceu na sua tela. Sim, era ela! O mesmo sorriso maroto, os mesmos cabelos loiros cacheados: a sua primeira paixão de escola. Mais tarde, ele descobriu, o nome certo desse sentimentoque ele nutriu por ela, por tantos anos: Amor Platônico. Aquele amor, que ele nunca conseguiu expressar.

Ele se apaixonara por ela no primeiro dia de aula. Menina espivetada..."da pá virada". Jogava volei na escola, enquanto ele estudava num canto da biblioteca, bem perto da janela, só para poder vê-la. Quem dera ele soubesse jogar alguma coisa, que servisse para chamar a atenção da garota. Mas, nada... Alguns graus de miopia o impediam de se livrar daquele incômodo óculos de fundo de garrafa... O jeito então, foi estudar. Logo pegou fama de CDF e ganhou uma arqui-inimiga: Ela.

Ele nem lembra como começou, mas o fato é que passaram o tempo de escola inteiro brigando: Ela e ele. Ela vinha para a escola toda perfumada, nariz empinado, com certeza só para provocar. Jogava os cabelos loiros no seu nariz só para fazê-lo espirrar... Mas o fato é que ele sonhava com aqueles cabelos a noite inteira, foi por isso que um dia cortou um cacho: Como recordação. Guardou o cacho no meio de um livro de poesia, dentro de um envelope perfumado, por anos. Até que um dia ele se foi, mas a paixão platônica ficou.

Uma vez tentou se aproximar. Comprou salgadinho para ela na cantina da escola. Ofereceu como um "tratado de paz" que não durou muito... A classe inteira se pôs a zombar dele: "Olha só! O ratinho branco de óculos apaixonado pela menina mais bonita da escola. É um babaca mesmo!" Ratinho branco! Já era demais. Ele tinha que sair por cima. Então inventou para a escola inteira que tinha achado o salgadinho no lixo. A garota ficou muito zangada. Mas a molecada sossegou. Dessa história só ficou um boato que corria pelos corredores, dizendo que um dia os dois iam se casar, porque o "ratinho" ia ter coragem de se declarar para sua princesa.

O tempo passou e ele mudou de escola, mas nunca esqueceu a sua primeira paixão. Já na faculdade se engraçou por outra loira, um pouco parecida com a garota da escola e conseguiu pedí-la em namoro. Ele já estava de casamento marcado quando encontrou, por acaso, a sua musa de infância na rua. Ele atravessava o cruzamento, quando ela parou o carro, olhou no retorvisor e passou batom. Ele ficou lá petrificado. Lembrando do batom que um dia tinha furtado da bolsa dela. Na época ele disse que tinha jogado no lixo, mas na verdade ele foi usado para desenhar vários beijos perfumados no espelho do seu quarto, corações com flechas atravessadas e as iniciais dos dois supostos apaixonados.

Nesse momento ele pensou em chamá-la, mas o que ia falar? Devolver o batom, talvez, junto com o cacho do cabelo, ou mandar a conta da lavanderia de uma calça que ela havia ensopado de cola na época da escola, só para se vingar...
O farol abriu e ela passou...como sempre correndo. E ele sempre devagar.

Ele casou com sua loira e esqueceu da garota da escola. Até aquela manhã quando viu seu nome no orkut. Sim, ela continuava linda. Ele suspirou e apertou SAIR. Não queria saber de mais nada. Não ia correr o risco de saber, que a sua paixão platônica ainda estava sozinha e ele agora era comprometido. "Não...ela deve estar muito bem casada... Pior ainda! Porque não foi comigo?"

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20 Fevereiro 2008

Salgadinho


Nem ela sabia porque estava digitando aquele nome. Já fazia tanto tempo... Mas Orkut é isso mesmo: Uma febre e uma mania, que já havia virado uma compulsão. Era gostar de um produto e lá ia ela, procurar se tinha comunidade no Orkut. Era não gostar também... Procurava as bandas favoritas, as comidas, os bichos de estimação. Fuçava em forum, nos recados das amigas, dos amigos, dos inimigos. Procurava colegas de faculdade, do trabalho, ex-namorados, amigos de escola... E foi numa dessas que ela digitou aquele nome. Apertou o ENTER e lá se foi... "Deve ter muitos... ou nenhum." pensou ela. Negativo, só tinha um. E era ele...

Ela nem sabia, porque tinha digitado aquele nome. Afinal, nunca foi com a cara dele. Menino chato, CDF, viviam brigando. Foi assim, durante todo o tempo do Colégio. Ambos soltando farpas, que já eram famosas pela escola inteira. Um dia ele veio querendo fazer as pazes e ofereceu um salgadinho. Ela aceitou. Depois soube que o salgadinho havia sido retirado do lixo. "Que nojo! Como pôde? Digitar o nome de um ser nojento, que havia lhe oferecido um salgadinho mais nojento ainda?” A brincadeira de mau gosto teve troco. Ela colocou cola na cadeira do CDF e ele lhe cortou os cabelos com a tesoura. Ela escondeu seus óculos e ele jogou seu batom no lixo. Assim passaram os dois, toda a idade escolar. Os amigos se divertiam e apostavam: Esses dois acabam casando! Ela fazia cara de nojo. Ele de pouco caso.

Quantos anos se passaram? Nossa! Uma vida! Uma vida, que fez ela esquecer a história do salgadinho do lixo e apertar o ENTER... De repente, ela estava rindo sozinha, e pensando que essas eram as melhores lembranças da sua época escolar. Foi por causa disso que ela apertou o ENTER de novo. E chegou na página dele. E lá foi ela, lendo item por item do perfil.

Sim, era ele! Mesmos óculos. “Continua com o mesmo mau gosto...” pensou. Humor: Sarcástico. “Claro, continua espírito de porco...” Visão política: Conservador. “Obvio! Todo CDF é conservador...” Não fuma, não bebe. “Deve continuar o mesmo chato...” Riu sozinha. Então ela leu: Relacionamento: CASADO.

“Casado!” Seus olhos não acreditavam no que viam... “Como ele pôde ter casado?” ENTER de novo, agora no álbum de fotos. Estava lá a prova do crime: Mulher, filhos, cachorro, churrasco no sítio, família feliz. Ela fazia ENTER boquiaberta... A palavra CASADO ecoava dentro de si. “Como que ele casou? Ele ia se casar comigo!”


Em um minuto a palavra CASADO, como mágica, tinha mudado tudo e ela de repente se sentia insultada. Desligou o computador com raiva. “Porcaria de Orkut!” Agora ela vai ter que voltar para a análise. “Não há mais um CDF insuportável te esperando, em algum lugar da sua vida...” Esse pensamento lhe deu uma horrível sensação de vazio. E só então ela entendeu, que no fundo, ainda esperava por ele, até hoje...

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04 Fevereiro 2008

Sonho de Carnaval


A olaria ferve no calor do sertão baiano. Entre suores e caras sujas, um a um os tijolos são moldados, enquanto uma legião desidratada respira pó e desolação.
O barracão ferve sob as telhas de zinco. O subúrbio paulistano fica pequeno para a multidão calorenta, que trabalha incessantemente entre paetês e plumas, decorando cada alegoria.
Déia põe a lata d´agua na cabeça e arrastando pezinhos imundos, segue com olhos magros os tijolos que saem do forno. O sol nasce cedo no sertão e parece que não dorme nunca. Um pouco de farinha e água faz o mingau do dia, enquanto os fornos são acesos. Naquele dia os tijolos pareciam mais pesados. Ou seria o peso de seus nove anos, ou menos que os tornavam assim.
A noite mal dormida de Andréia custou caro. A greve do transporte público a fez andar quilômetros para chegar no serviço e os pés pesados, de quem não viu o descanso sacrificavam a alma.
A primeira coisa que Déia lembra ter segurado foi um tijolo. Não foi o peito seco de leite da mãe, nem boneca de palha de milho, foi um tijolo e desde então nunca mais largou essa vida.
A primeira vez que Andréia entrou no barracão lhe deu a sensação que ela pertencia áquele lugar. Cada lantejoula que ela colava, cada pena que costurava fazia seu corpo suar e lavar a sua alma.
Déia desde cedo cuidava dos irmãos mais novos e ajudava a mãe na olaria. Todos centavos que ganhava, era para comprar comida. Nunca havia ficado com dinheiro nenhum para ela.
Com o seu salário, Andréia pagava o aluguel. Pouco restava no fim do mês para passear ou comprar roupa bonita. O dinheiro que sobrava ia para os remédios da mãe, que estava sempre necessitada.
Déia tinha um único vestido velho. Que antes tinha sido da mãe e das irmãs. Um remendo aqui e outro acolá contavam a história da chita desbotada, que vestia seu corpo de menina moça.
Para comprar sua fantasia Andréia começou a trabalhar no barracão. Pegou gosto e nunca mais parou. A cada ano escolhe para si a fantasia mais bonita e põe mãos á obra.
Naquele dia, Déia havia ido buscar farinha na vila quando passou pelo salão de festas da cidade. Curiosa esticou seus pezinhos e espiou, atraída pelo barulho que vinha de lá de dentro. Eram mulheres e homens que bailavam. As moças tinham vestidos coloridos que giravam deixando transparecer lindas anáguas de cetim e renda. Inebriada pela música Déia não tirava os olhos das anáguas e acabou adormecendo ali mesmo, na calçada.
Andréia foi levada ao sambódromo por uma amiga. O ensaio técnico da escola era aberto ao público que, de graça, se amontoava na arquibancada. As alas iam se agrupando enquanto a bateria ensaiava as primeiras batucadas. Como mágica, de repente ela cruzou a linha amarela e estava no coração da avenida, ouvindo os aplausos da multidão e o grito de guerra que empurrava seus joelhos trêmulos para a dispersão.
O coração de Déia batia acelerado, enquanto ela contava para a mãe, sobre os vestidos e as anáguas das moças no baile.
O coração de Andréia pulava em seu peito e um nó na garganta levou lágrimas aos seus olhos.
Déia chorou no colo da mãe maldizendo seu único vestido desbotado.
Andréia chorou na avenida ao som do ensaio da bateria.
Déia fez as contas: se trabalhasse durante um ano inteiro, produzindo mais 20 tijolos por dia, no Carnaval seguinte conseguiria comprar um vestido novo.
Andréia jurou que nunca mais deixaria a passarela do samba.
O Carnaval estava chegando no sertão e o único salão da pequena vila preparava uma grande festa, embalada pelas sanfonas e violas da região.
Do outro lado do barracão a bateria ensaiava seu batuque, sob a batuta do puxador de samba. O tempo estava encurtando e pouco restava até o dia do desfile.
Déia juntou suas moedas e foi para a cidade. Estava na hora de comprar o tão sonhado vestido, mas, em um ano, os preços haviam subido. Só conseguiu comprar o pano. Um corte de chita e um de cetim para a anágua.
As mãos habilidosas de Andréia trabalham sem cessar. Andréia pica o dedo com a agulha, os dedos inchados já não estão mais precisos e a noite se arrasta no barracão, onde o grupo de mulheres borda, costura e arremata.
No dia seguinte o vestido de Déia está pronto, feito pela tia que olha com ternura para a ingenuidade da criança. Ela mesma, nenhum sonho mais tem. As casas de farinha há muito acabaram com eles e com a sua saúde.
Andréia experimenta a fantasia, coloca a coroa e o costeiro e se sente uma rainha.
Déia coloca seu vestido e pela primeira vez se sente gente.
Enquanto o ônibus segue para o sambódromo, Andréia suspira de emoção. É como se fosse a primeira vez.
Pela primeira vez, Déia entra no salão de tábuas enceradas, com seu único vestido. Naquela noite ela ia dançar pela primeira vez. Xique, xique, xique fazia o vestido ao rodar.
O tamborim marca o ritmo do samba. Xique, xique, xique fazia a cabeça de Andréia girar.
A cada giro, a anágua de cetim aparecia. Como nunca havia dançado, Déia não fazia outra coisa além de girar. O cheiro da cera e o escorregadio do salão ajudavam ela a deslizar. Um após outro, todos os meninos do baile tiraram Déia para dançar. E ela dançou e dançou a noite inteira.
Andréia sambava orgulhosa em sua fantasia. Em poucos minutos ela havia esquecido todas suas preocupações. Nem o salário baixo, a moradia precária, a doença da mãe, ou a pobreza existiam.
No dia seguinte Déia volta para a olaria. Muitos tijolos a esperavam. Ela nunca mais dançaria.
Acabou o Carnaval e as lágrimas de Andréia vão para a escola rebaixada. No barracão, ela soluça abraçada a uma alegoria. Não chora só pela escola, mas pela sua pobreza, sua desilusão e pelo sonho desmoronado mais uma vez.
A olaria ferve no sertão baiano.
No barracão vazio, o sonho de Andréia continua no próximo ano .

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